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...olhando
com perplexidade um mapa que um dos oficiais abrira sobre a mesa.
Alguma coisa, em sua expressão
fisionômica, causou-me profunda emoção. Era
o rosto de um homem que assassinaria outro, ou daria sua própria
vida por um amigo, o tipo de rosto que se espera encontrar num
anarquista, embora com toda a probabilidade ele fosse comunista.
Encontravam-se, naquela expressão, candura e ferocidade
ao mesmo tempo, bem como a reverência patética que
os analfabetos possuem por aqueles que julgam seus superiores.
Estava mais do que claro que ele não entendia patavina
do mapa, cuja leitura e interpretação deviam, a
seus olhos, constituir estupenda façanha intelectual. Eu
não sei por que, mas poucas vezes vi alguém que
me agradasse de modo tão imediato.
(...)
Ao sairmos daquela sala, ele veio em minha direção
e apanhou-me a mão com força. É estranha
a afeição que podemos sentir por um desconhecido!
Era como se o espírito dele e o meu conseguissem, por um
instante, ultrapassar o obstáculo do idioma e das tradições
diferentes, e se encontrassem na maior intimidade. Eu esperava
que ele gostasse de mim tanto quanto eu gostava dele, mas também
sabia que para conservar minha primeira impressão a seu
respeito seria preciso não vê-lo pela segunda vez,
sendo desnecessário dizer que foi exatamente isso o que
aconteceu. Sempre se estava fazendo tais tipos de contato e conhecimentos
na Espanha.
Faço esta referência ao miliciano italiano porque
ele ficou vivamente preso à minha lembrança. Com
seu uniforme em mau estado e expressão fisionômica
feroz e patética, ele constitui para mim a visão
típica da atmosfera especial daquela época. Está
entrelaçado a todas as minhas recordações
daquele período da guerra, as bandeiras vermelhas em Barcelona,
os trens descoloridos repletos de soldados mal trajados que rumavam
para a frente de luta, as cidades pardacentas e assoladas pela
guerra próxima, as trincheiras enlameadas e regeladas nas
montanhas.
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(George
ORWELL, Lutando na Espanha, 1938)
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...No
Quartel Lênin, em Barcelona, na véspera de
meu ingresso na milícia, vi um miliciano italiano em frente
à mesa dos oficiais.
Era um moço de seus vinte e cinco anos de idade, com expressão
carrancuda, espadaúdo, cabelo meio avermelhado e louro. O
quepe de couro, de bico, estava repuxado de modo feroz sobre um
dos olhos, e de perfil para mim tinha o queixo encostado ao peito,
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