Introdução ao Apologia mais de 20 anos depois
Lá se vão 20 anos! Este artigo foi escrito no curso de
1986 e foi apresentado, sob a forma de Projeto de Pesquisa, o Projeto
Cinema-História, ao Colegiado do Departamento de História
em 1987. Aprovado o Projeto, somente em 1994 veio à luz com a
fundação da Oficina Cinema-História e,
em 1995, com o lançamento do primeiro número da Revista
O Olho da História, onde aparece pela primeira vez em
público o Apologia da relação Cinema-História.
Ele se transforma assim numa espécie de Manifesto de Fundação
da Oficina e de O Olho.
O Apologia buscou inspiração para seu título no
Apologie de l’Histoire de Marc Bloch e suas primeiras fontes argumentativas
em Marc Ferro, mas sem desconhecer o trabalho precursor de Siegfried
Kracauer utilizando o cinema expressionista alemão ao mesmo tempo
como fonte, objeto e problemática de pesquisa do fenômeno
do nazismo. O complexo processo de investigação sobre
a relação cinema-história, nos levou a conhecer
toda uma “escola” de historiadores e cientistas sociais
que se aplicaram em graus diferenciados ao seu estudo e que em viagens
sucessivas à Europa e à Argentina se tornaram compagnons
de route e aos quais dedico a republicação do Apologia.
São eles além de Ferro: Kristian Feigelson, Luis Hueso,
Sylvie Dallet, Sylvie Lideperg, Robert Rosenstone, José Caparros,
Michèle Lagny, Pierre Sorlin, José Enrique Montrerde,
Mário Ranalletti, TzivTal, Pietsie Freenstra. Na época
que redigimos o artigo Apologia não se falava em cinema-história
no Brasil. Mas desde logo pudemos contar com algumas simpatias. É
forçoso lembrar aqui a de José Carlos Sebe, Maria Antonacci
e Sheila Schvarzman da área de história, e, mais recentemente
a de Hilda Machado. Pudemos também contar com o apóio
da crítica estética ou da sociologia do cinema, como Ismail
Xavier, Michel Marie, Fernão Ramos.
A gênese do Apologia está na busca de organizar as idéias
do seu autor sobre algo que sempre considerou uma necessidade, a saber:
estudar a história pelo cinema e vice-versa. Isto é claro,
sem negar a importância dos aspectos estéticos dos produtos
cinematográficos e as especificidades de suas linguagens e signos,
mas concebendo a forma como uma expressão dialética do
conteúdo, e o conteúdo, sem possibilidade de separação
cartesiana da forma, sendo determinado por ela também. Desde
cedo me animou a clareza de que não existiam belas formas, senão
da vida, da história e de seus processos. O mais gratificante,
para além de todas as suas conseqüências, é
que continuamos a pensar como naquela época. Refinamos, é
claro, nossa elaboração a respeito da problemática
cinema-história, estendemos seu campo, aprofundamos seu alcance
e desenvolvemos suas conseqüências epistemológicas.
Mas, inclusive, dessas conseqüências, até mesmo as
bases da razão poética já se achavam no artigo
original. Por tudo isto, o texto que apresentamos agora nesta republicação,
é, absolutamente, o mesmo.
A idéia foi assim, e desde sempre, estudar o cinema de um ponto
de vista exclusivamente estético não nos interessaria
por si só. Por que não teríamos o direito? Sua
interdição expressaria uma postura preciosista que não
caberia ao historiador – voltando à etimologia da palavra
poíesis cuja extensão dos significados não se encontra
nos dicionários da língua portuguesa - acostumado a se
sujar com o barro da história, a manipulá-lo (no sentido
largo da palavra) empiricamente. Sem dúvida, conhecer as linguagens,
os truques de montagens, ler os planos, realizar découpages de
estruturas de um cenário em planos, deveria fazer parte, na medida
do possível, do arsenal do historiador, como do mesmo modo ele
é obrigado a aprender a ler nas entrelinhas dos documentos escritos.
Ao aporte da psicanálise, por que não juntar aquele da
semiologia? Mas nos parecia absurda – e nos parece, todavia -
uma exigência absoluta que a rigor, não encontrávamos
com facilidade na maior parte dos “especialistas” mesmos
em estética do cinema! E refletíamos: será absolutamente
necessário a alguém que deseja estudar literatura se tornar
um lingüista? Era assim, uma abstração absoluta,
exigir-se, especialmente a um historiador, um rigor que, no limite,
beirava ao esteticismo puro e duro de leituras quase “matemáticas”
da realidade estética. Sobretudo porque o cinema, documentário
ou ficção, ensina, explica, documenta a história,
constrói memória e discursa sobre a história desde
que foi inventado, sem conseguir, mesmo nas fórmulas mais estetizantes,
criar uma estética de formas puras, “vazias” de vida,
de modo absoluto. E onde há vida, há história;
onde há história, há poesia; e onde há poesia,
há verdade, diria Goethe!
Cinema-história sempre foi, assim, uma relação
complexa que poderia ser apreendida como objeto e como problemática.
Cinema e história é uma coisa semelhante e distinta de
cinema-história. Cinema-história cria uma relação
complexa que qualifica um outro ponto dialético que não
aquele do historiador que quer estudar o cinema como obra de arte (ou
como sistema complexo de produção – a economia do
cinema – a evolução de suas técnicas, por
exemplo) ou do cineasta que quer representar, e tratar dos fenômenos
histórico-sociais e os da vida tout court! No artigo que escrevemos
em 1986 já pensávamos também o cinema como suporte
e linguagem, ao tempo em que constatava as incongruências de certas
atitudes pretensamente científicas. Por que a relação
cinema-história não era tomada considerando-se não
apenas o olhar dos estudiosos da estética (mas qual ainda hoje
é a origem dos estudiosos da estética cinematográfica,
senão aquela, em boa medida, das ciências sociais?) ou
o dos críticos, mas também aquela perspectiva do ponto
de vista do conhecimento histórico e através da démarche
do historiador? Enfim, por mais “revoluções”
científicas que tivessem ocorrido, o cinema parecia território
sagrado para refinadíssimos especialistas. Nele o historiador
ou o cientista social não encontraria legitimidade. Mas também
o próprio corpus acadêmico donde provinha o cientista social
e o historiador, alimentava uma rejeição e um estigma
positivista que queria fazer crer na validade da palavra de ordem neo-positivista
que defendia que “a história se fazia apenas com documentos
escritos”, ou simplesmente que estudar cinema não era atividade
de gente séria! É doloroso assim, conseguir sobreviver
a complexos provincianos (regionais ou nacionais) e a preconceitos que,
não raro, dissimulam mal outras subjetividades.
Outra atitude comum era aquela que pretendia que a nossa perspectiva
era, simplisticamente, aquela que via no fenômeno da “escrita”
da história pela cinematografia uma reprodução
do fenômeno da ideologia. Nossos críticos se recusavam
ver largo na amplitude do nosso espectro, que, aliás, só
pode ser o da totalidade contraditória do processo histórico.
Sem dúvida, ele admite também o fenômeno ideológico
vez que não é suficiente o desejo de inventar uma nova
moda acadêmica travestida em saberes bem falantes para se conseguir
amputar da realidade um fenômeno tão central como o fenômeno
da ideologia. Com certeza, e felizmente, nem tudo é ideologia.
Nunca fomos, muito menos, adeptos “completos” da teoria
da Escola de Frankfurt. Sempre consideramos que se existia – e
existe sempre ainda hoje do ponto de vista dominante do capital –
uma tendência e uma necessidade homogeneizadora em direção
a um “pensamento único”, as contradições
entre o capital e o trabalho submersas pela ideologia sempre abriam
brechas significativas, tanto no terreno sócio-histórico,
quanto no seu processo particular de generalização ideológica
– que também ocorre nas academias quando, por exemplo,
insistem em querer sepultar as classes sociais e as lutas de classes,
como se as declarações de imposto de renda não
indicassem suas existências. Felizmente a ciência brota
da vida como menino de rua, contrariando todas as “leis”,
estruturas, conjunturas e desejos (ideologicamente conscientes ou não),
comprovando que, enquanto existir vida, a ciência poderá
vicejar. Para fazer a história (processo e conhecimento) andar
um pequeno pedaço, muitas vezes é preciso de pa/ciência,
muita paciência.
Das conseqüências e transcendências epistemológicas
do Apologia
Como desdobramentos do Apologia, da Oficina Cinema-História e
da revista O Olho da História e de seus aprofundamentos através
do Projeto Novas Lentes para a História, penso haver chegado
a uma conclusão importante que é a hipótese mais
geral que examino na atual etapa da minha pesquisa: a de que a história,
enquanto ciência é uma razão poética e não
uma razão pura. É exatamente a formulação
mais original e ao mesmo tempo mais transcendente que elaborei para
explorar na atual etapa. A partir da idéia da história
como razão poética, busco explorar o valor epistemológico
da imaginação e das hipóteses como elementos fundamentais
para a construção de um novo paradigma histórico,
da forma como expus e defendi em Congressos, Simpósios e artigos.
No Novas Lentes parti de uma perspectiva transdisciplinar para desenvolver
a reflexão teórica sobre a relação imagem-história.
Uma das hipóteses principais era a de que as novas tecnologias
áudio-imagéticas, em especial as de suporte digital, tinham
aberto um imenso potencial para criação de novas representações
do real e do imaginário sócio-histórico. Conseqüentemente,
abriram novos caminhos para construção da história,
que superariam os limites, tanto dos textos escritos, quanto dos textos
clássicos áudios-visuais (cinema, vídeo, televisão),
criando novas possibilidades de narrativas. Através de pesquisas
empíricas com manipulação de tecnologias multimidiáticas,
e da reflexão teórica a partir da experiência de
historiadores, epistemólogos, semiólogos, educadores e
profissionais das áreas de construção das novas
linguagens, elaborei um sistema de hipóteses sobre as novas formas
de escrita historiográfica que podem surgir a partir de vias
de utilização dos novos suportes tecnológicos.
As combinações imagem-som-idéias têm produzido
um complexo sistema que podem tornar os discursos históricos
mais competentes e mais completos para a produção de narrativas
históricas mais próximas ainda da realidade objetiva dos
processos históricos.
Esse sistema de hipóteses permanece válido, mas só
bem recentemente compreendi o quão substantivo serão seus
desdobramentos. É fato que as imagens e os sons da história
provocavam não apenas a reflexão, a razão pura,
mas uma razão “contaminada” de emoção.
Antes esta era tida como só prejudicial à compreensão-explicação
científica dos fenômenos e processos históricos.
Eu mesmo enfrentei um tortuoso processo de crítica ao racionalismo
para sintetizar as suas conseqüências. Hoje a abordagem que
dou à questão das Novas Lentes como suportes e linguagens
para o trabalho historiográfico, se acha completamente subsumida
pela problemática epistemológica da relação
entre imaginação, hipóteses, documentos e o processo
histórico que se busca representar historiograficamente. Assim,
defendendo a possibilidade de produção e difusão
de conhecimento histórico por meio de diversas mídias
e de diversas linguagens hiper-textuais, incorporo à pesquisa
direta as questões epistemológicas que inevitavelmente
o projeto original envolvia potencialmente. A razão pura, racionalista,
a experiência com cinema-história possibilitou uma crítica
fundamental. Para sair da crise de paradigmas e especialmente do paradigma
cartesiano da razão pura, fui forçado a enfrentar a referida
discussão posta a áreas diversas do saber que não
apenas a área das Ciências Humanas. (NÓVOA, 2004)
Era preciso assimilar a questão, a saber: em que medida o racionalismo
cartesiano era capaz de dar conta do lugar do sentimento-emoção
na produção e circulação do conhecimento.
Cheguei, através de Fougeyrollas (1994) a Kant e a Friedrich
Nietzsche como dois críticos do cientificismo cartesiano. Kant
estabelece pela primeira vez que o conhecimento resulta de uma colaboração
entre as sensações e os conceitos. Na sua Critique de
la raison pure (1980) abole desse modo a metafísica e transforma
a filosofia numa teoria do conhecimento, numa teoria da ética
e da estética. Nietzsche foi, junto com Marx, dos poucos que
compreendeu que a especulação filosófica nascida
com Platão, reformada por Descartes e revolucionada por Kant,
tinha encontrado um limite no racionalismo. Apaixonado que era pelos
pré-socráticos propunha uma retomada da concepção
de saber deles. Assim, essa problemática dos limites da especulação
filosófica e do racionalismo cientificista, já se achava
presente na consciência científico-filosófica de
pensadores modernos. Para Nietzsche de nada servia o eruditismo de Leopold
von Ranke, por exemplo. Para ele que advogava o retorno aos pensadores
pré-socráticos o critério da ciência deveria
ser a vida (ver sua Da Utilidade e Desvantagem da História para
a Vida). Para além do universo acadêmico a contradição-continuidade
entre o crítico e o orgânico achava-se presente também
nos literatos e artistas modernos. A filmografia do século XX
é um verdadeiro lugar de memória dessa questão.
Marx, por sua vez, foi pelo menos desde as suas Teses sobre Feueubach
também um pensador crítico do racionalismo cientificista
do século XIX e da modernidade. (COLLIN, 1996) A tese marxiana
sobre eles (os filósofos não fizeram outra coisa senão
interpretar o mundo) deve ser capturada também como um plaidoyer
por uma razão não contemplativa, mas dionisíaca.
Fazia apologia de uma razão que, como a pré-socrática
ioniana, sujava as mãos na terra da poíesis, que em grego
quer dizer criação empírica através das
mãos. Para Marx pensar é transformar, produzir movimento,
criar-ação, permanentemente. Marx respondeu como Goethe,
no começo foi a ação. Na ação a natureza
se auto-engendra sem razão, sem consciência. É,
portanto puramente orgânica. O fenômeno da consciência
introduz uma conseqüência ontológica: a natureza que
pensa sobre sua própria ação torna-se crítica.
Prigogine sustenta que a origem foi o movimento. Marx, à moda
hegeliana, afirma que foi o movimento/permanente ou que não houve
começo. Por conseguinte, quer em termos científicos, quer
em termos políticos, Marx não via sentido no amor platônico
do arqueiro que, ao jamais atirar a sua flecha, congelava o seu objeto.
Nem mesmo as equações matemáticas bastam a si mesmas.
Assim, o fim dos tempos modernos capitalista pode ver se afirmar uma
nova ciência que verifica que o fim da filosofia deve ser entendido
como o fim do pensamento criticista, especulativo, que resolve em si
mesmo. Nessas circunstâncias a ciência não teria
que ser completada pela improvisação intuitiva, criativa
e pela paixão? E nesse processo o seu pensamento não se
tornava também orgânico? A hipótese de que o novo
pensamento deve ser orgânico-crítico é avançada
por Fougeyrollas. A hipótese de que em grande medida esse pensamento
já é o de Marx, é minha. A importância adquirida
por Marx para a nossa pesquisa, reside no fato de que com ele pela primeira
vez a crítica da modernidade e de suas representações
ideológicas encontra uma base material-empírica na sua
teoria do fetichismo da mercadoria.
Hoje, a crise os modelos explicativos, idealizados pelo cientificismo
que se desenvolveu desde os finais do século passado, se estilhaçaram.
É uma grande ilusão acreditar que apenas as chamadas ciências
humanas estão à deriva. É o que se tem chamado
de crise de paradigmas. Objetivamente, as demais ciências ditas
naturais (e exatas) também estão em crise. As imagens
do real, fragmentadas parecem substituir as unidades orgânicas
de pensamento que serviam como referência às formações
sociais do Ocidente. Os mais radicais pensam que o real é de
fato virtual! Que tais apreciações façam parte
da filosofia, ou mesmo da literatura, ou ainda da arte de um modo geral,
é mais do que explicável. Mas observa-se a proliferação
desse pressuposto epistemológico na história — que
constrói a sua cientificidade a partir da idéia de que
o processo histórico existe de modo objetivo e independentemente
da forma mais ou menos correta (científica) através da
qual a nossa subjetividade o concebe. Com certeza, o real-histórico
nem sempre é o que se pensa dele. Porém, ninguém
pode negar que, muitas vezes, o fenômeno psicológico, histórico,
natural ou físico, é bem apreendido pelo sujeito do conhecimento.
É exatamente isso que nos possibilita aspirar à construção
de um conhecimento científico e de uma teoria científica,
inclusive a partir dos objetos que constituem o comportamento humano,
individualmente ou em sociedade. Prigogine diz que as escolhas, as possibilidades,
a incerteza, são ao mesmo tempo uma propriedade do universo e
próprio da existência humana. No universo natural existe
historicidade e o que chama de a flecha do tempo. Este não é
só uma propriedade subjetiva do homem, mas uma propriedade cosmológica
que recoloca o homem (natureza-consciente) no ápice da evolução
do universo. Diante dos muitos enigmas defende a legitimidade da imaginação
e mesmo a criação.
Portanto, existia latente ou pouco desenvolvido no Apologia e no Novas
Lentes uma epistemologia e uma nova pedagogia. Às bases dessa
crítica teórico-histórica deve-se juntar aquelas
oriundas das pesquisas psicológicas e neuro-biológicas
que trouxeram novos elementos fundamentais para uma nova pedagogia.
Ela também deverá ser uma crítica radical ao cartesianismo
na pedagogia dominante. A neuro-biologia evidenciou de forma contundente
e revolucionária a inoperância do pensamento cartesiano
e das antigas formas de separação em compartimentos estanques,
corpo-mente/razão-emoção. Rompem com o paradigma
cartesiano que separa o corpo da mente. Damásio em O Erro de
Descartes parte de uma história emblemática de conseqüências
transcendentes para as diversas ciências, inclusive para pedagogia.
As emoções e os sentimentos podem não ser de todo
intrusos no bastião da razão, enredando-se, para o melhor
e para o pior, nas suas teias; a tradição reservou uma
idéia incorreta de que a emoção é necessariamente
inimiga da razão. O mais surpreendente e inédito é
que a ausência de emoções não seja percebida
como suscetível de comprometer a racionalidade. No que têm
de melhor, os sentimentos encaminham-nos na direção correta,
levam-no para o lugar apropriado do espaço de tomada de decisões
onde podemos tirar partido dos instrumentos da lógica. Damásio
sustenta que os níveis baixos do edifício neurológico
da razão são os mesmos que regulam o processamento dos
sentimentos e as funções do corpo necessárias para
a sobrevivência do organismo. Eles mantêm relações
diretas e mútuas com praticamente todos os órgãos
do corpo, colocando-o assim diretamente na cadeia de operações
que dá origem aos desempenhos de mais alto nível da razão,
da tomada de decisão e, por extensão, do comportamento
social e da capacidade criadora.
As conseqüências dessas constatações tem um
resultado imediato: o paradigma cartesiano e as especulações
filosóficas gerais sobre a relação mente-cérebro-corpo
são refutados de imediato. Mas o alcance transcendente para outras
áreas do saber é incomensurável em diversos domínios.
No campo da comunicação, do ensino-aprendizagem-pesquisa
tudo deve ser reformulado, não apenas os currículos, mas
também as formas de considerar as emoções e sentimentos
nesses processos. Para o estudo da percepção, da cognição,
enfim, o funcionamento da consciência, a conseqüência
é radical: no processo ensino/aprendizagem, assim como na produção
do conhecimento, não pode existir separação absoluta
entre razão/emoção. O sistema educacional inteiro
precisa ser reformulado. No domínio da epistemologia, quando
aceitamos as hiper-especializações dos saberes (que passaram
a ser verdadeiros fetiches desde o século XIX) criamos bloqueios
para que a produção e a circulação do conhecimento
possa se fazer de modo ainda mais eficaz!
Para as pesquisas ligadas a problemática cinema-história
o alcance dessa transcendência é incontornável:
os novos meios de construção de discursos e narrativas
para a história, não somente pode usar as IMAGENS e os
sons como suportes e recursos atrativos. Ao constituírem componentes
fundamentais das novas linguagens eles se tornam, mais que possíveis;
tornam-se imprescindíveis porque mais eficazes.
À complexidade dos fenômenos humanos só se pode
oferecer uma multiplicidade de abordagens, uma verdadeira totalização
transdisciplinar. O reflexo da crise nas ciências humanas produziu
também o fetichismo das especializações ou dos
compartimentos estaques. Fez ainda ressurgir o espírito da enciclopédia
como dizia Lucien Febvre, da perspectiva multidisciplinar na busca de
um saber, não totalitário, mas totalizante. As crises
nas ciências como na vida, têm sido até agora equivalente
aos processos de acumulação de energias que precedem os
processos de entropia. Desse modo as aquisições das disciplinas
ao se transdisciplinarem, como inevitavelmente está acontecendo,
exigirão novos modelos generalizantes. A relação
cinema-imagem-história é um campo fecundo para isto. No
seu centro epistemológico germina a idéia de que a História
é uma ciência com subjetividade ou com razão poética.
Assim, é impossível deixar de lado o exame do valor epistemológico
da imaginação e das hipóteses como elementos fundamentais
para a construção de um novo paradigma histórico.
Arrisco dizer que nenhum laboratório pode ser, pela própria
natureza, mais fecundo que aquele da relação cinema-história
para ajudar à razão assumir os sentimentos que já
são os seus.
Obras citadas
NÓVOA, Jorge. A ciência histórica e os pensadores
ou a razão poética como pensamento orgânico-crítico:
elementos para a reconstrução do paradigma historiográfico.
In: Politeia: história e sociedade. Revista
do Departamento de História da Universidade Estadual do Sudoeste
da Bahia – v.4 n.1(2004). Vitória da Conquista, Bahia,
Edições UESB, 2004. pp. 13-66.
FOUGEYROLLAS, Pierre. Vers la Nouvelle Pensée.
Paris, Harmattan, 1994.
KANT, Emmanuel. Critique de la raison pure. Paris,
Gallimard, 1980.
COLLIN, Denis. La théorie de la connaissance chez Marx.
Paris, L’Harmattan, 1996.