número 11
Salvador, BA, dezembro de 2008

in memorian a Pierre Fougeyrollas

      Revista de Ciência, Cultura, Cinema e Sociedade
 
    ISSN 1413-1129

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Muitos lugares nos demandam que façamos algo. Do Haiti ao Iraque, da Bolívia ao Equador, da Tailândia à Indochina, da Turquia ao Kurdistão e ao Afeganistão. Mas, pela brutalidade, pela desigualdade de forças e também pela hipocrisia paternalista internacional que envolve essa questão, o povo palestino é o mais vulnerável nesse exato momento. Tal vulnerabilidade tem origem no seio de um Estado que diz ter sido construído para salvar o povo judeu do holocausto e das câmaras de gás. Sem dúvida se trata de uma violência perpetrada contra a população civil palestina, e tudo isto sob o silêncio construído pelas grandes potências e pelos organismos internacionais.

É simplesmente escandaloso! Uma coisa é certa: quem quiser que se engane com Obama. Seu primeiro teste político já mostra para o que veio. Pouco importa se ele ainda não tomou posse. Outros iguais a ele, cinicamente dizem apenas que estão acompanhando. O Papa e a Igreja Católica, ou qualquer outra, acreditam que não é da sua conta. E no Brasil onde estão as forças políticas democráticas? Tudo bem que devemos fazer listas de protesto e vigílias! Mas é só isto que devemos e podemos fazer? Na última hora soubemos dos esforços da Cruz Vermelha Internacional para entrar nos campos controlados pelo Exército Israelense e de um novo atentado anti-semita na França, em Toulouse. Uma das associações anti-racistas que defende os palestinos condenou o ataque sob o argumento de que ele não serve à causa mesma palestina. Mas uma das coisas que muito argutamente o artigo abaixo chama a atenção é de que a escalada da violência em Gaza tem feito e aprofundará o amálgama entre anti-sionismo e anti-semitismo.

Para refletir sobre questões como a atual situação da Faixa de Gaza é que organizamos a coluna Mundo Urgente e publicamos um pequeno artigo de Denis Collin e a entrevista do historiador Ilan Pappé. Nascido na cidade de Haifa em 1954, Pappé é um dos denominados "novos historiadores" de Israel. É Doutor em Ciencias Políticas pela Universidade de Oxford (1984) e em 1996 foi candidato do partido de esquerda Hadash á Knéset. É autor de livros como The Ethnic Cleansing of Palestine (2006) e A History of Modern Palestine: One Land, Two Peoples (2005).

A intelligentsia israelense conheceu, nos anos 1980, o começo de uma mutação notável, que marca a ascensão de uma nova geração de homens e de mulheres que não conheceram a shoah nem a criação do Estado de Israel. Essa evolução é também testemunho do amadurecimento progressivo das elites, capazes, a partir de então, de julgar sem complexo o passado e de se livrar dos mitos e tabus propalados pelos dirigentes israelenses. Intelectuais, historiadores, sociólogos, filósofos, jornalistas, escritores, cineastas e artistas se rebelaram à partir da Guerra dos Seis Dias, em 1967. Tornaram-se os primeiros pesquisadores, desde a criação do Estado de Israel, a procurar fundamentar seus trabalhos em documentos irrefutáveis. Com esse espírito a obra mais recente de Ilan Pappé, The ethnic cleansing of Palestine (A limpeza étnica da Palestina), provocou tanto escândalo que ele teve que se demitir da Universidade de Haifa para se exilar na Inglaterra como dissidente procurando escapar da opressão que se abate sobre eles por conta do trabalho sério e desmistificador que realizam. Pappé usou documentos guardados nos arquivos israelenses há sessenta anos assim como em escritos de historiadores palestinos. Recuperou a memória de sobreviventes da limpeza étnica.

 
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