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Como
desdobramento de todas as pesquisas que realizei, desde aquelas
que deram origem a fundação da Oficina Cinema-História
até a atualidade, penso haver chegado a uma conclusão
importante que é a hipótese mais geral que examino
na atual etapa da minha pesquisa: a de que a história,
enquanto ciência é uma razão poética
e não uma razão pura. É exatamente a
formulação mais original e ao mesmo tempo mais transcendente
que elaborei para explorar na atual etapa. A partir da idéia
da história como razão poética, busco explorar
o valor epistemológico da imaginação e das
hipóteses como elementos fundamentais para a construção
de um novo paradigma histórico, da forma como expus e defendi
em Congressos, Simpósios e artigos.
No projeto Novas Lentes para a História, parti de uma perspectiva
transdisciplinar para desenvolver a reflexão teórica
sobre a relação imagem-história. Uma das
hipóteses principais era a de que as tecnologias áudio-imagéticas,
em especial as de suporte digital, tinham aberto um imenso potencial
para criação de novas representações
do real e do imaginário sócio-histórico.
Conseqüentemente, abriram novos caminhos para construção
da história, que superariam os limites, tanto dos textos
escritos, quanto dos textos clássicos áudios-visuais
(cinema, vídeo, televisão), criando novas possibilidades
de narrativas. Através de pesquisas empíricas com
manipulação de tecnologias multimidiáticas,
e da reflexão teórica a partir da experiência
de historiadores, epistemólogos, semiólogos, educadores
e profissionais das áreas de construção das
novas linguagens, elaborei um sistema de hipóteses sobre
as novas formas de escrita historiográfica que podem surgir
a partir de vias de utilização dos novos suportes
tecnológicos. As combinações imagem-som-idéias
têm produzido um complexo sistema que podem tornar os discursos
históricos mais competentes e mais completos para a produção
de narrativas históricas mais próximas ainda da
realidade objetiva dos processos históricos.
Esse sistema de hipóteses permanece válido, mas
só bem recentemente compreendi o quão substantivo
serão seus desdobramentos. É fato que as imagens
e os sons da história provocavam não apenas a reflexão,
a razão pura, mas uma razão “contaminada”
de emoção. Antes esta era tida como só prejudicial
à compreensão-explicação científica
dos fenômenos e processos históricos. Eu mesmo enfrentei
um tortuoso processo de crítica ao racionalismo para sintetizar
as suas conseqüências. Hoje a abordagem que dou à
questão das Novas Lentes como suportes e linguagens para
o trabalho historiográfico, se acha completamente subsumida
pela problemática epistemológica da relação
entre imaginação, hipóteses, documentos e
o processo histórico que se busca representar historiograficamente.
Assim, defendendo a possibilidade de produção e
difusão de conhecimento histórico por meio de diversas
mídias e de diversas linguagens hiper-textuais, incorporo
à pesquisa direta as questões epistemológicas
que inevitavelmente o projeto original envolvia potencialmente.
A razão pura, racionalista, a experiência com cinema-história
possibilitou uma crítica fundamental. Para sair da crise
de paradigmas e especialmente do paradigma cartesiano da razão
pura, fui forçado a enfrentar a referida discussão
posta a áreas diversas do saber que não apenas a
área das Ciências Humanas. (NÓVOA, 2004) Era
preciso assimilar a questão, a saber: em que medida o racionalismo
cartesiano era capaz de dar conta do lugar do sentimento-emoção
na produção e circulação do conhecimento.
Cheguei, através de Fougeyrollas (1994) a Kant e a Friedrich
Nietzsche como dois críticos do cientificismo cartesiano.
Kant estabelece pela primeira vez que o conhecimento resulta de
uma colaboração entre as sensações
e os conceitos. Na sua Critique de la raison pure (1980) abole
desse modo a metafísica e transforma a filosofia numa teoria
do conhecimento, numa teoria da ética e da estética.
Nietzsche foi, junto com Marx, dos poucos que compreendeu que
a especulação filosófica nascida com Platão,
reformada por Descartes e revolucionada por Kant, tinha encontrado
um limite no racionalismo. Apaixonado que era pelos pré-socráticos
propunha uma retomada da concepção de saber deles.
Assim, essa problemática dos limites da especulação
filosófica e do racionalismo cientificista, já se
achava presente na consciência científico-filosófica
de pensadores modernos. Para Nietzsche de nada servia o eruditismo
de Leopold von Ranke, por exemplo. Para ele que advogava o retorno
aos pensadores pré-socráticos o critério
da ciência deveria ser a vida (ver sua Da Utilidade e Desvantagem
da História para a Vida). Para além do universo
acadêmico a contradição-continuidade entre
o crítico e o orgânico achava-se presente também
nos literatos e artistas modernos. A filmografia do século
XX é um verdadeiro lugar de memória dessa questão.
Marx, por sua vez, foi pelo menos desde as suas Teses sobre Feueubach
também um pensador crítico do racionalismo cientificista
do século XIX e da modernidade. (COLLIN, 1996) A tese marxiana
sobre eles (os filósofos não fizeram outra coisa
senão interpretar o mundo) deve ser capturada também
como um plaidoyer por uma razão não contemplativa,
mas dionisíaca. Fazia apologia de uma razão que,
como a pré-socrática ioniana, sujava as mãos
na terra da poíesis, que em grego quer dizer criação
empírica através das mãos. Para Marx pensar
é transformar, produzir movimento, criar-ação,
permanentemente. Marx respondeu como Goethe, no começo
foi a ação. Na ação a natureza se
auto-engendra sem razão, sem consciência. É,
portanto puramente orgânica. O fenômeno da consciência
introduz uma conseqüência ontológica: a natureza
que pensa sobre sua própria ação torna-se
crítica. Prigogine sustenta que a origem foi o movimento.
Marx, à moda hegeliana, afirma que foi o movimento/permanente
ou que não houve começo. Por conseguinte, quer em
termos científicos, quer em termos políticos, Marx
não via sentido no amor platônico do arqueiro que,
ao jamais atirar a sua flecha, congelava o seu objeto. Nem mesmo
as equações matemáticas bastam a si mesmas.
Assim, o fim dos tempos modernos capitalista pode ver se afirmar
uma nova ciência que verifica que o fim da filosofia deve
ser entendido como o fim do pensamento criticista, especulativo,
que resolve em si mesmo. Nessas circunstâncias a ciência
não teria que ser completada pela improvisação
intuitiva, criativa e pela paixão? E nesse processo o seu
pensamento não se tornava também orgânico?
A hipótese de que o novo pensamento deve ser orgânico-crítico
é avançada por Fougeyrollas. A hipótese de
que em grande medida esse pensamento já é o de Marx,
é minha. A importância adquirida por Marx para a
nossa pesquisa, reside no fato de que com ele pela primeira vez
a crítica da modernidade e de suas representações
ideológicas encontra uma base material-empírica
na sua teoria do fetichismo da mercadoria.
Hoje, a crise os modelos explicativos, idealizados pelo cientificismo
que se desenvolveu desde os finais do século passado, se
estilhaçaram. É uma grande ilusão acreditar
que apenas as chamadas ciências humanas estão à
deriva. É o que se tem chamado de crise de paradigmas.
Objetivamente, as demais ciências ditas naturais (e exatas)
também estão em crise. As imagens do real, fragmentadas
parecem substituir as unidades orgânicas de pensamento que
serviam como referência às formações
sociais do Ocidente. Os mais radicais pensam que o real é
de fato virtual! Que tais apreciações façam
parte da filosofia, ou mesmo da literatura, ou ainda da arte de
um modo geral, é mais do que explicável. Mas observa-se
a proliferação desse pressuposto epistemológico
na história — que constrói a sua cientificidade
a partir da idéia de que o processo histórico existe
de modo objetivo e independentemente da forma mais ou menos correta
(científica) através da qual a nossa subjetividade
o concebe. Com certeza, o real-histórico nem sempre é
o que se pensa dele. Porém, ninguém pode negar que,
muitas vezes, o fenômeno psicológico, histórico,
natural ou físico, é bem apreendido pelo sujeito
do conhecimento. É exatamente isso que nos possibilita
aspirar à construção de um conhecimento científico
e de uma teoria científica, inclusive a partir dos objetos
que constituem o comportamento humano, individualmente ou em sociedade.
Prigogine diz que as escolhas, as possibilidades, a incerteza,
são ao mesmo tempo uma propriedade do universo e próprio
da existência humana. No universo natural existe historicidade
e o que chama de a flecha do tempo. Este não é só
uma propriedade subjetiva do homem, mas uma propriedade cosmológica
que recoloca o homem (natureza-consciente) no ápice da
evolução do universo. Diante dos muitos enigmas
defende a legitimidade da imaginação e mesmo a criação.
Portanto, existia latente ou pouco desenvolvido no Apologia e
no Novas Lentes uma epistemologia e uma nova pedagogia. Às
bases dessa crítica teórico-histórica deve-se
juntar aquelas oriundas das pesquisas psicológicas e neuro-biológicas
que trouxeram novos elementos fundamentais para uma nova pedagogia.
Ela também deverá ser uma crítica radical
ao cartesianismo na pedagogia dominante. A neuro-biologia evidenciou
de forma contundente e revolucionária a inoperância
do pensamento cartesiano e das antigas formas de separação
em compartimentos estanques, corpo-mente/razão-emoção.
Rompem com o paradigma cartesiano que separa o corpo da mente.
Damásio em O Erro de Descartes parte de uma história
emblemática de conseqüências transcendentes
para as diversas ciências, inclusive para pedagogia.
As emoções e os sentimentos podem não ser
de todo intrusos no bastião da razão, enredando-se,
para o melhor e para o pior, nas suas teias; a tradição
reservou uma idéia incorreta de que a emoção
é necessariamente inimiga da razão. O mais surpreendente
e inédito é que a ausência de emoções
não seja percebida como suscetível de comprometer
a racionalidade. No que têm de melhor, os sentimentos encaminham-nos
na direção correta, levam-no para o lugar apropriado
do espaço de tomada de decisões onde podemos tirar
partido dos instrumentos da lógica. Damásio sustenta
que os níveis baixos do edifício neurológico
da razão são os mesmos que regulam o processamento
dos sentimentos e as funções do corpo necessárias
para a sobrevivência do organismo. Eles mantêm relações
diretas e mútuas com praticamente todos os órgãos
do corpo, colocando-o assim diretamente na cadeia de operações
que dá origem aos desempenhos de mais alto nível
da razão, da tomada de decisão e, por extensão,
do comportamento social e da capacidade criadora.
As conseqüências dessas constatações
tem um resultado imediato: o paradigma cartesiano e as especulações
filosóficas gerais sobre a relação mente-cérebro-corpo
são refutados de imediato. Mas o alcance transcendente
para outras áreas do saber é incomensurável
em diversos domínios. No campo da comunicação,
do ensino-aprendizagem-pesquisa tudo deve ser reformulado, não
apenas os currículos, mas também as formas de considerar
as emoções e sentimentos nesses processos. Para
o estudo da percepção, da cognição,
enfim, o funcionamento da consciência, a conseqüência
é radical: no processo ensino/aprendizagem, assim como
na produção do conhecimento, não pode existir
separação absoluta entre razão/emoção.
O sistema educacional inteiro precisa ser reformulado. No domínio
da epistemologia, quando aceitamos as hiper-especializações
dos saberes (que passaram a ser verdadeiros fetiches desde o século
XIX) criamos bloqueios para que a produção e a circulação
do conhecimento possa se fazer de modo ainda mais eficaz!
Para as pesquisas ligadas a problemática cinema-história
o alcance dessa transcendência é incontornável:
os novos meios de construção de discursos e narrativas
para a história, não somente pode usar as IMAGENS
e os sons como suportes e recursos atrativos. Ao constituírem
componentes fundamentais das novas linguagens eles se tornam,
mais que possíveis; tornam-se imprescindíveis porque
mais eficazes.
À complexidade dos fenômenos humanos só se
pode oferecer uma multiplicidade de abordagens, uma verdadeira
totalização transdisciplinar. O reflexo da crise
nas ciências humanas produziu também o fetichismo
das especializações ou dos compartimentos estaques.
Fez ainda ressurgir o espírito da enciclopédia como
dizia Lucien Febvre, da perspectiva multidisciplinar na busca
de um saber, não totalitário, mas totalizante. As
crises nas ciências como na vida, têm sido até
agora equivalente aos processos de acumulação de
energias que precedem os processos de entropia. Desse modo as
aquisições das disciplinas ao se transdisciplinarem,
como inevitavelmente está acontecendo, exigirão
novos modelos generalizantes. A relação cinema-imagem-história
é um campo fecundo para isto. No seu centro epistemológico
germina a idéia de que a História é uma ciência
com subjetividade ou com razão poética. Assim, é
impossível deixar de lado o exame do valor epistemológico
da imaginação e das hipóteses como elementos
fundamentais para a construção de um novo paradigma
histórico. Arrisco dizer que nenhum laboratório
pode ser, pela própria natureza, mais fecundo que aquele
da relação cinema-história para ajudar à
razão assumir os sentimentos que já são os
seus.
Obras
citadas
NÓVOA, Jorge. A ciência histórica e os
pensadores ou a razão poética como pensamento orgânico-crítico:
elementos para a reconstrução do paradigma historiográfico.
In: Politeia: história e sociedade. Revista
do Departamento de História da Universidade Estadual do
Sudoeste da Bahia – v.4 n.1(2004). Vitória da Conquista,
Bahia, Edições UESB, 2004. pp. 13-66.
FOUGEYROLLAS, Pierre. Vers la Nouvelle Pensée.
Paris, Harmattan, 1994.
KANT, Emmanuel. Critique de la raison pure. Paris,
Gallimard, 1980.
COLLIN, Denis. La théorie de la connaissance chez
Marx. Paris, L’Harmattan, 1996. |